Como previsto na semana passada, pela equipe do Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa, as chuvas ocorreram sobre o Estado de Roraima, seguindo a passagem do sol pelo zênite. A situação dos incêndios e queimadas mudou rapidamente, com a mudança climática. Esta nota resume a análise realizada pela equipe do NMA, a partir das imagens de satélite.
A imagem obtida no canal 2 do satélite NOAA 14 é um retrato bastante fiel da repartição das chuvas, ao longo do dia 31 de março, corroborada por outros dados meteorológicos. Nas áreas azuis não houve praticamente chuvas, nas áreas verde claro e verde choveu de 10 a 30 mm (30 litros por metro quadrado!) e nas áreas amarelas e laranja o nível de chuvas foi ainda maior.
Essa imagem mostra que o essencial das chuvas concentrou-se sobre a porção oeste de Roraima, ou à margem direita do rio Branco, abrangendo inclusive a cidade de Boa Vista. A grande concentração das chuvas ocorreu nas extremidades ocidentais do estado e nas cabeceiras do Orinoco já na Venezuela. A manutenção desse padrão de chuvas levará a um aumento progressivo do volume dos rios Mucajaí e Catrimani. Em oposição a essa situação, a imagem mostra que nas regiões Norte-Nordeste e Sul-Sudeste do Estado, praticamente não choveu.
Os dados meteorológicos indicam para os próximos três dias a permanência desse quadro de tempo nublado, com pancadas de chuva e trovoadas em todo Estado, principalmente na sua região oeste.
A principal e mais espetacular conseqüência das chuvas foi uma enorme redução dos pontos de incêndios e queimadas no estado. Como os pesquisadores da Embrapa haviam salientado, na sexta feira passada: da mesma forma fácil que essa vegetação altamente comburente, mas pouco combustível, pegou fogo, com as chuvas as chamas seriam apagadas. Além do mais, houve uma coincidência quase perfeita entre as áreas de maior precipitação e as áreas de maior concentração de incêndios, observadas nas imagens orbitais captadas há três dias pela equipe do Exército e da Embrapa no CPAF-RR.
Neste momento, a propagação de qualquer remanescente de incêndio ou o início de novas queimadas tornou-se muito mais difícil por cinco razões:
1. A vegetação natural que estava seca, agora está molhada;
2. O índice de umidade do ar aumentou (de 40 para 80%), dificultando a propagação;
3. Houve uma queda generalizada das temperaturas: de 30/35 graus para 23/28 graus, mesmo se com a umidade a sensação de calor possa parecer aumentar durante o dia. O tempo nublado também reduz a insolação e o aquecimento dos materiais vegetais potencialmente incendiáveis.
4. O vento diminuiu de intensidade, mantendo-se fraco ou moderado, sempre de direção dominante nordeste (eventualmente norte e até noroeste ). Essa tendência deve permanecer nos próximos dias.
5. A possibilidade de retomada de incêndios a partir de brasas, folhas mobilizadas pelo vento, pela convecção no ar quente etc fica muito limitada. Nos locais onde o Exército havia controlado o fogo, as chuvas agora o extinguiram por completo.
A observação da imagem do satélite NOAA-12, captada pela Embrapa no início da noite de ontem, mostra no canal infravermelho (canal 3) o desaparecimento da quase totalidade dos focos de incêndio em Roraima. A presença de nuvens pode ocultar alguns focos mas a comparação entre períodos diferentes (as nuvens deslocam-se) permite evidenciar o que segue:
Subsiste um foco expressivo na região norte, próximo à fronteira com a Venezuela (em direção a serra do Pararaima/) e algumas pequenas concentrações de queimadas, mas a leste, de pequena magnitude, na região da Serra da Raposa e Morada do Sol.
Outros pequenos focos podem ser observados no sul do estado, próximos a estradas, principalmente na estrada que leva para a Serra do Acaraú, a partir do eixo viário Caracaraí-Manaus. Trata-se de uma região de pequena agricultura de colonização. As queimadas são pequenas e limitadas, com poucas chances de propagação.
No prolongamento meridional, em direção ao norte, podem ser observados pontos de queimadas de grande magnitude que ainda persistem na Venezuela, assim como pontos distribuídos em toda sua área de savanas. Na Guiana houve também uma significativa redução dos pontos de queimada. Amanhã aprofundaremos mais o caso dos vizinhos, dada nossas prioridades atuais.